Nada digno sobrevive na mentira

A tragédia de desespero, medo, dano, pavor, terror vivida cotidianamente pelos moradores do bairro Frei Lency é um vômito na cara da sociedade concordiana, uma fratura de vergonha e incompetência generalizada que transformou a vida de famílias de gente boa, honesta e trabalhadora numa sala de entrada do inferno, numa caldeira do purgatório.

Olhos que não precisam de boca; olhares sem vida pedindo por uma salvação qualquer; mães com olheiras profundas de insônia; homens indefesos; polícia algemada por inoperância jurídica; ministério público insensível; instituições mudas, cegas e surdas; projetos residenciais irresponsáveis; entidades financeiras incompetentes; bandidagem eufórica… São ingredientes de um caldeirão do inferno que está gerando o caos numa comunidade humilde e desesperançada que jaz esquecida numa periferia distante de tudo e de todos.

“Alguém tem que nos salvar”, “Nós também somos gente”, “Sair pra trabalhar é um terror”, “Meu menino não quer mais ir pra aula de medo”… Essas são algumas das expressões que moradores gritam como se fosse uma oração que ninguém ouve.

Senhores, o Rio de Janeiro é aqui, no Meio Oeste Catarinense. Pois uma cidade de cerca de 72 mil habitantes que possui apenas três viaturas para patrulhamento poderia esperar o quê? Uma cidade que, ao invés de ouvir denúncias desesperadas de moradores e tomar providências, trata o morador como bandido. É esse o atendimento que as vítimas estão tendo por aqui.

Posto Avançado de Polícia tem que estar onde respira a violência, onde o tráfico desfila em carro aberto, onde a ameaça contra a vida é utilizada como estratégia de poder e dominação. Autoridades que têm medo de molhar o sapatinho social e seus terninhos de marca fazem mais mal a uma sociedade do que o próprio bandido.

Funcionários públicos concursados que se entocam em escritórios e sedes suntuosas enquanto os humildes veem suas vidas e de seus familiares na bala de uma Ponto 40, ou de uma Nove Milímetros, ou de uma Faca Pontiaguda, são a mais ostensiva mostra de como falimos como sociedade. E nós pagamos alguns dos salários e privilégios mais exorbitantes do planeta para essa gente.

Nosso paraíso concordiense é uma mentira deslavada, uma cuspida desaforada na face da decência. Enquanto vivemos um engano, um faz de conta, dias de propaganda estratégica de poder, as periferias sangram pelo olhar dos inocentes, pelo calar de idosos indefesos, pela fúria contida de pais que são obrigados a explicar o inexplicável às suas crianças.

O que vem da mentira, mentira é. O que nasce podre, não brota, não sobrevive. Políticas públicas deveriam ser honestas, partir de um desejo íntimo de amor ao próximo e não puramente estratégias de poder. Por aqui, o Frei Lency está nas mãos de Deus.

Um comentário em “Nada digno sobrevive na mentira

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  1. Por isso digo não, não a toda essa sujeira que estamos vivendo e não ‘a degradação moral de uma nação que começa nas periferias e se alastra como erva daninha levada pela ganância, pelo egolatria e pela sem -vergonhice daqueles que deveriam defender a dignidade do povo ao qual representam.

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