Desde quando favela é cultura?

Há pouco mais uma turista espanhola de 67 anos foi morta num passeio turístico pela favela da Rocinha, Zona Sul do Rio de Janeiro. Um suspeito da morte é um tenente da Polícia Militar. As circunstâncias do ocorrido ainda são incertas, pois o carro que levava a turista teria avançado numa blitz.

Mas minha pergunta é: que diacho de gente atravessa o oceano Atlântico, sai da Europa para vir visitar uma espécie de subcultura? Me parece que é o mesmo desejo doentio de pagar para visitar o inferno só para satisfazer uma curiosidade mórbida pelo inusitado.

Sim porque apesar de ser elencada ao status de “cult”, uma favela é um cortiço de cimento e laje onde o esgoto corre a céu aberto, pessoas se empilham em casas de pombos sem orientação técnica mínima, fiações elétricas pavorosas roubam energia do Estado sem vergonha alguma, moradores odeiam policiais e protegem traficantes, crianças são largadas pelos pais para serem educadas pelas ruas estreitas e insanas.

Favelas são o lado errado de uma sociedade democrática evoluída. São ajuntamentos de indivíduos que somem dentro de si mesmos, pessoas que simplesmente respiram num dia para continuar respirando no outro e agradecendo por ainda pulsarem no terceiro dia. Favelas são amontoados de desesperança e permissividade, junto com sonhos miseráveis de tão pobres.

Ser favelado é algo que deveria ser transitório e não um processo cultural eterno, é algo a ser evitado e não considerado como uma cultura visitável por burgueses desnorteados. Que tipo de gente paga R$ 140,00 para fazer um “tour” por dentro de um acampamento de refugiados do samba que se escondem de si mesmos em pilhas de conformados com a própria inércia? Que tipo de adulto fecunda e obriga uma criança a viver uma vida inteira entre casebres entulhados, no meio de bala de fuzil, no meio de tráfico interminável, estudando em escolas que deveriam ser blindadas?

E tem gente que se orgulha de  nascer, viver e morrer numa favela! O sonho passa a ser ter uma televisão plana, um Smartphone caro, poder ficar num botequim bebendo cerveja num final de semana e repetir no outro, participar de uma hipnótica roda de samba e se contentar com isso algumas milhares de vezes por toda uma vida. Sinceramente, é sonhar  pouco, é exigir pouco de si, é ousar nada, é imaginar zero.

Mas tem gente que paga para visitar uma sociedade em decomposição, um exemplo de subserviência, felicidade falsa, um punhado de seres humanos conformados com sua situação. Tem meios de comunicação inclusive, que fazem vídeos turísticos (sempre sobrevoando os telhados longínquos) como se isso fosse algo que significasse evolução!

A análise social de uma favela brasileira é a mesma que um acampamento de refugiados de guerra, com a diferença que no acampamento de refugiados não há “gato” de eletricidade e sinal de TV digital, nem bala cruzando o céu. Os dois deveriam ser um estágio de passagem e não um modo de vida transmitido de geração para geração.

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