A Ideologia da Culpa e a Era das Vítimas

De repente, percebe-se que todo mundo foi assediado, estuprado, alisado, amassado, linguado, lambido, espremido, ofendido, despido, acossado, namorado, apaixonado, enquadrado, acuado, sexualmente. Pipoca pelo mundo uma verdadeira epidemia de ofendidos sexuais, nos mais diversos setores da sociedade.

De repente, as pessoas perceberam que, de alguma maneira, foram atacadas sexualmente. Aquilo que era uma cantada para muitos, subitamente se transformou num atentado pornográfico que desenterra traumas há muito superados. Dá mesmo a impressão que a nova moda é expor nas mídias que uma lambida num sorvete, olhada de maneira estranha por alguém do outro lado da calçada, na verdade era uma mirada ofensiva que provocou dano irreparável, 20 anos depois. Vejo como mais um reflexo da tal Ideologia da Culpa, tão enfronhada nas relações sociais.

Um olhar passou a ser uma violência, um tocar se transformou numa facada, uma declaração de amor, meio que fora de protocolo, virou um grito de filme de terror. Viver se transformou numa agonia movida a interesse e oportunidade. Adolescentes informados e completamente educados se transformaram em vítimas em movimento e vítimas necessárias.

Parece mesmo que ser vítima de alguma coisa se tornou uma necessidade. Vítimas de abuso sexual, vítimas de racismo, vítimas de pobreza, vítimas de miséria, vítimas do progresso, vítimas da guerra, vítimas do capitalismo, vítimas da dor, vítimas da riqueza, vítimas da Esquerda, vítimas da Direita, vítimas da Ditadura, vítimas de uma opressão qualquer… Eis então a Era das Vítimas! E todas as vítimas agora querem reparação! Alguém tem que pagar por alguém se sentir vítima! Agora, cada um de nós, em algum momento, temos o direito a gritar que somos vítima, como se isso fosse uma garantia de vivermos uma era melhor, mais inteligente e moderna.

Há uma competição por quem sofreu mais, por quem padeceu mais, foi sacrificado mais, imolado mais, estropiado mais. Se alguém foi sacrificado politicamente, merece que todas as gerações que vierem, carreguem-no e seus descendentes também, num andor, como um santo, para pagar uma culpa por não terem nascido antes e impedido uma violência qualquer.

Se sou pobre é porque sou vítima de quem não é, se sou ignorante é porque sou vítima de quem estudou, se sou acossado com um olhar é porque sou vítima sexual de um olhar mal dirigido, se me sinto menor é porque sou vítima de quem nem sabe que existo. Não importa, eu preciso ser vítima e pronto!

Logo, não se espante, começará a surgir um exército de vítimas da Segunda Guerra Mundial e da Primeira Guerra Mundial, vítimas do Império Inca, vítimas da Santa Inquisição na Idade Média… Você mesmo, você, certamente é uma vítima, então entre na fila e aguarde que o seu momento de reparação vai chegar.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: