Negro correndo? É ladrão! Mata!

O pavor porque passou o ator Diogo Cintra, sendo perseguido por ladrões, algo bem comum numa cidade sem lei como São Paulo, poderia ter sido interrompido com a atuação de seguranças, que foram contratados para dar “segurança” aos usuários do Terminal Parque Dom Pedro II. Mas o terror da vítima estava longe de ter acabado.

Numa reviravolta comportamental horrorosa, a vítima tentando fugir de seus assaltantes, com o coração saltando pelo peito e o medo corroendo a alma, os ladrões simplesmente contaram com o apoio da segurança do Terminal. Isso mesmo, ao ser interpelado, valeu a afirmação dos ladrões para transformar Diogo em assaltante. Qual o “azar” da vítima? É negro! Negro correndo? É ladrão! Mata!

Ato contínuo, a vítima começa a ser agredida selvagemente pelos assaltantes de fato agora com a ajuda dos “seguranças”. Neste instante, caros leitores, vamos fazer um jogo de nos por no lugar da vítima verdadeira. Imagine que você está fugindo de bandidos, procura apavorado o serviço de defesa de um local público e descobre, com infelicidade, que foi tocaiado, foi empurrado para uma armadilha. Tudo apenas porque você tem uma pele diferente e não porque você é um ser humano buscando salvação.

Imagine-se agora, vivendo o dia seguinte…! Como conservar a doçura, como conservar a compreensão, como permanecer acreditando no respeito, como não perder a esperança, como olhar para as entidades sociais de forma otimista? Como olhar a Justiça com olhos amorosos, quando cada chute no rosto, cada pancada nas costelas mostrava uma realidade dolorosa de se suportar?

Vamos, coloque-se na pele de um Diogo negro qualquer, que volta de um dia de trabalho cansado e é atacado como um animal feroz por uma sociedade malignamente racista? Como levar a vida adiante? Como falar de amor sem parecer falso? Como dormir com a sensação de ser um  refugiado no seu próprio país?

Insisto! Coloque-se no papel de alguém que, por ter uma pele diferente, simplesmente perde a necessária e democrática dúvida pró. Se você for negro, mulato, albino, amarelo, não pode mais ousar correr de bandidos brancos. Se correr, vira bandido por observação. Então, do jeito que nossas entidades estão perdidas é perfeitamente possível acreditar que uma criança de pele diferente da branca já deve aprender a se defender sozinha. Porque policiais brancos, delegados brancos, ministério público branco, seguranças brancos, juízes e desembargadores brancos estão lá para condenar e punir um negro qualquer que corre desesperado de pavor de uma sociedade mentirosa e hipócrita até às tripas.

É isso que estamos ensinando para as crianças. Que elas estão sozinhas, que policiais, seguranças, vigilantes, podem atirar antes e perguntar depois se o alvo tiver pele negra. Que vergonha! Que decadência! Que lamentável situação nos metemos? Não seria lindo se, por uma vontade divina, amanhecêssemos diferentes, ou seja, passássemos a ter várias cores de pele durante do dia. Pense, sou branco, agora sou negro, mais algumas horas sou mulato, duas horas depois sou albino, durmo amarelo, levanto com olhos amendoados, vou trabalhar negro novamente, tomo café branco… E assim por diante.

Cara, seria divertido observarmos uns aos outros tentando sobreviver nesta nova e fantasiosa realidade!

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