Poema da precaução

Cuidado! Espere um pouco! Respire, reflita, reflita mais um pouco, filtre suas decisões atravessando-as pelo portal dos seus melhores sentimentos e só depois dê o veredito. Acredito que isso pode salvar a gente.

Ao olhar o mendigo na rua, permita que você possa estar errado ao determinar que lá está um bêbado, um drogado, um insano. Ele pode estar apenas tão perdido que sua única solução foi a rua mesmo. Mas a decência, a vergonha, a bondade e a capacidade ainda podem estar lá, perambulando com ele por aí.

Ao olhar alguém que vem em sua direção com olhos vertendo lágrimas, não fuja como um covarde ganancioso, porque, talvez, você esteja se vendo logo adiante. E esteja certo que você se verá. Ah, você se verá.

Ao se abraçar com o poder, a grana e os amigos de ocasião, imagine que você pode estar desfrutando de um dinheiro maldito, que matou, roubou, mutilou, poluiu, destruiu antes de ser sua cama de prazer.

Ao apontar o dedo infalível e com critério admoestador, lembre que a dor é um determinante poderoso de atos impensados, mas que, de maneira alguma, ela define o caráter de alguém e muito menos sua capacidade de retornar a si, melhorado.

Ao  incluir a ira no seu raciocínio, você já matou-o, porque ficou, imediatamente, cego, surdo e tolo. E sua decisão já não é mais original, ela provém de fora, de algo, ou de alguém.

Ao definir qualquer coisa, como verdade absoluta, você pode ter entrado num labirinto do qual jamais poderá sair inteiro e digno. Você se torna uma simples cópia do que vê e compreende.

Ao vender seus sentimentos a pressões externas sem controle de si, você mesmo sumiu no tempo e no espaço. Virou poeira se deslocando sem comando próprio, uma nave que destruiu seu piloto e que deixa no rastro sombras, fugas, insanidades temporais.

Por isso, precaução, cuidado, alerta, moderação! Deixe tudo que entra no cérebro atravessar os vários níveis da interpretação, para só então atirar. Atirar é um fim qualquer. E você não tem o direito de ser fim de nada.

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