Crônica de um Nôno solitário

O Nôno, já pra lá dos 80 anos, começou a sentir aquela sensação de ser esquecido, um sentimento muito comum no idoso brasileiro. Estava naquele momento da vida em que tinha ser tornado uma espécie de super-herói que podia ficar invisível. Um super-herói triste, já que podia sentir aquela solidão com a qual todos os idosos morrem.

Nos raros encontros de família, sua presença era sonoramente descartada e sentia que perdia feio para smartphones, TV a cabo, Redes Sociais e até o amigo carteado já não era mais o mesmo porque nem as cartas lhe convidavam mais para jogar, pois, infelizmente, tinha se tornado muito lento.

O Nôno então começou a chamar a atenção: tossia alto, falava alto, ria sozinho alto, se enfiava nas conversas paralelas e isso foi causando inconveniências e gerando desconfortos. Inevitavelmente o Nôno se tornou aquilo que os mais jovens chamam de “chato”, “pé no saco”, “difícil de aguentar”… E começou a ser evitado. E o Nôno começou a dar indiretas do tipo “Que que tem que  ninguém mais qué conversá c’o Nôno”?, “O Nono tá vivo, vio”!…

Mas isso não adiantou muito e resolveu acrescentar algum drama nas investidas para chamar a atenção. Coisas leves como “Vou me matá!”, “É, o Nôno tá melhor morto mesmo!”, “Vo me enforcá lá no pé de pera, vocês vom vê”!…

Num dia, finalmente a família se reuniu numa festa de final de ano. Uma típica festa italiana: gente berrando, primos que não se viam há um bom tempo rindo, se abraçando, lembrando peraltices, grôstoli passando de mão em mão, vinho correndo solto, logo irmãos se acusavam por algo tinham feito um para o outro há 35 anos, gente pedindo pra falar porque até o momento só tinha ouvido e o Nôno lá no canto, sentado, sozinho, triste, só observando. Tinha virado super herói de novo e tinha ficado invisível.

Então, finalmente, ele tomou a iniciativa fatal e avisou em voz alta “O Nôno vai lá fora se enforcá no pé de pera”! A frase correu solta e todos, absolutamente todos, incluindo o cachorro que copulava com a cadela no cio, pararam em silêncio…! Que durou exatos três segundos. Alguém com o saco cheio daquela lenga lenga gritou “Ma vai lá e se mata, Dio Madona”! E novamente todos voltaram a fazer o que estavam fazendo. O cán também voltou a copular, a música correndo mais alta ainda.

O Nôno pegou uma corda, andou os 10 metros até o pé de pera que observava calado, amarrou a corda no galho mais grosso que encontrou, colocou a corda no entorno do pescoço, esperou um momento e disse em alto e bom tom “O Nôno se matô!”. Lá embaixo a música não parou, as gargalhadas continuaram.

E o Nôno voltou a gritar bem alto “Bonito, né, o Nôno se matô e ninguém parô de contá piada, de cantá e de se divertir!”. E continuou “O NÔNO SE INFORCÔ E A FESTA CONTINUA, QUE BONITO NÉ”.

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