Poema de uma chuva que, enfim, veio

No início eram gotas, às quais chamei de “fiótes”, que brincalhonas caíram apenas para marcar caminho. Logo, outras aguardaram sua vez em suspensão. E se deixaram cair, prenunciando que, enfim, depois de árdua espera, descessem as outras da atmosfera sobre os passos deixados pelas iniciais. E aquilo que merecia, que precisava ser molhado, o foi. Está sendo.

E minha Concórdia olhou para cima com o olhar de quem vê não água, mas esperança, quase como olhar de uma criança que foca o seio da mãe e o procura no lugar certo, porque sabe que estará lá.

Assim vejo a vida e as lições dadas por ela: a água que não vinha há muito, quase uma pequena eternidade, é, na verdade, uma chuva de esperança a molhar o solo das almas, seco de desânimo, pessimismo, ética bruta, soberba, desamor, conhecimento vazio.

Dou mais valor, mais que à própria água tardia, ao significado de sua importância sobre a alma humana. Porque, mais que a natureza, quem precisava dela cá embaixo, eram almas humanas secas, esturricadas de pensamentos inferiores, “likes” alopradas, opiniões desatinadas, visões compradas ao sofrimento da maioria do que seja ser um país.

E mais uma vez a chuva me diz que ela sozinha não dá vida, se no objeto tocado, seja terra, seja corpo, não estiver vivo, pulsando, um desejo de vida decente. Porque a água poderia cair em torrente, mas encontraria lá embaixo já algo morto em si. Enfim, ela veio e salpicou de felicidade  meu ninho, o lugar onde, sozinho, jamais serei feliz. Nem você, espero.

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